segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Acho que é mal de verão mesmo. Minha analista diz que é mal de asma mas eu acho que tem alguma coisa a ver com calor, com secura; esse sentimento de sufocamento, de perda de ar. Nada claustrofóbico porque não me sinto pressionado ou achatado, me sinto só sem ar, sem ter para onde correr.
As vezes só queria ter umas vinte e quatro horas e uns quebradinhos para olhar para um teto branco e nele achar caminhos e pontos de fuga. Eu só queria ficar sozinho... Soa um pouco ridículo porque no fim todo mundo pode ficar ou ser sozinho, né? Mas eu queria me isolar, não só dos outros mas dos espaços e personalidades que convergem em um fluxo desordenado dentro da minha cabeça, debaixo das minhas unhas...
Uma vontade boba de parar na beira do precipício, olhar para trás, olhar para baixo e sentar na beirinha para olhar o céu.  Encarar o céu é sempre mais fácil quando você não o questiona. O mundo seria mais seguro sem respostas.

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Lumière

O artista argentino Julio Le Parc, que vive em Paris desde seus 31 anos, teve a sua exposição Lumière remontada na Casa Daros no Rio de Janeiro. Le Parc é conhecido por ser muito crítico e debochado, e por criar obras com um teor político muito explícito; sejam elas sobre o sistema capitalista, a burguesia opressora ou o mercado da arte. Em Lumière a militância do artista se dedica à missão de combater a forma como o espectador percebe a obra de arte.
Para Le Parc a arte só é possível quando o espectador usa seus próprios olhos para explorá-la, invertê-la e destrinchá-la. É com esse pensamento que ele cria suas máquinas produtoras e desenhadoras de luz. Para que não tenhamos um ponto de partida, para que o nosso olhar possa criar uma ponte nem um pouco sólida como o objeto de arte. Lumière é uma exposição muito bem planejada para que não haja planejamento algum da parte de quem vê. A liberdade do olhar se torna um claro objetivo do artista nessa exposição.
Trabalhar com a luz, como Le Parc faz, não só nos confunde em relação à forma como devemos ver, como nos desorienta quanto ao que estamos vendo. Talvez seja uma espécie de desenho fotografado, ou foto em movimento... Logo se torna impossível não se questionar: como é possível criar essa movimentação tão livre e espontânea usando aquilo que se propaga em linha reta, que é rápida, firme?
Emocionante e genial, o cinetismo fotográfico de Le Parc me chama à atenção para um mundo muito mais iluminado que luminoso. A luz, hoje, é artifício para destacar, alertar e indicar outras coisas. Mesmo as fontes luminosas, aquelas que despejam a luz no mundo (e esta por sua vez, ganhando uma forma completamente diferente da sua de origem), foram esquecidas. Tudo isso talvez se explique por esse confinamento, ou talvez adequamento, ao qual nos encontramos, que nos “ensina” a ver as coisas e nos obriga a experimenta-las de um modo muito uniforme.

Caminhando por Lumière, em algum momento martela na sua cabeça ex umbris ad lucem, mas logo você vai ignorar esse ditado. Porque ali dentro talvez você perceba que trevas e luz fazem parte da liberdade que o olho tanto anseia. 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Não sei mais o que estou falando.

O homem inventou Deus e esqueceu disso. Meu pai dizia que alguém dizia algo assim...
Eu só acredito em Deus porque nós o inventamos, acredito no nosso poder de criação. Se "tudo que é imaginário tem, existe, é", então Deus existe.
Acredito nesse ser sem ter qualquer momento de dúvida; um absurdo, é claro, mas acredito. Absurdo tão evidente que damos a ele um d maiúsculo, um não lugar, um não poder e o amor (que não existe pra gente, só pra ele). Criamos uma coisa que não é uma criatura, que não nasce, não morre, não vive, não cheira, não cospe...
Não acho que esse "isso" seja cruel, incrível e tudo o mais. Só acho uma loucura o homem  conseguir criar algo muito maior que ele. Deus é a prova absurda de que o homem não é nada sem ele mesmo.
É muito fácil ser ateu, ser politeísta, ser criança. Acreditar em Deus é sem volta, não é um erro seu, mas que você mantém.
Dia do juízo não vai acabar em lágrimas, chamas e desastres, vai ser o primeiro dia do eterno vazio, vai ser quando a humanidade vai se tocar que Deus nunca existiu, mas foi ele quem sempre a manteve caminhando.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

Infância que apaixona

Me encantei por um garoto que brincava com um elefante amarelo. O menino cortava, costurava, cerzia e remendava roupinhas para o elefante. Mas em momento algum ele se apegou ao brinquedo, entendia que era um boneco sem vida.
Ele só queria brincar e desafiar as pessoas que se aproximavam mostrando que seu brinquedo favorito era um elefante amarelo. Ele sabia que todo mundo olhava torto, que era estranho. Mas o menino gostava do estranho, do diferente, o estranho era ser amarelo, era explosivo, era feliz.
Guiado pela cor do animal gigante ele conseguiu sua liberdade antes da adolescência.
Fiquei tão nervoso com aquele menino crescendo rápido, ganhando o mundo e andando sozinho com as próprias pernas do elefante, que bolei um plano para tentar trazer ele de volta.
Me casei com ele.
O plano deu errado.
Hoje eu dou comida pro elefante enquanto ele conta histórias pro bichinho e diz como essa nossa família vai ganhar o mundo.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Por Parte de Pai

-Mãe, a minha relação com o meu pai só vai melhorar quando ele morrer, e isso já está para acontecer.
Quando eu disse essas palavras em uma conversa com minha mãe, nós não sabíamos que meu pai estava mal de saúde. Foi profecia.
Todo mundo sempre soube, e hoje faz questão de esquecer, como era difícil a convivência entre Camilo e Luiz. O primeiro era criança e o segundo era um monstro. Um monstro literário, um monstro acadêmico, um monstro de amigo...mas não era fácil dividir o mesmo teto desse monstro.
Minha mãe sempre diz que falar cura, mas falar sobre meu pai é tão difícil quanto era falar com ele. Todo mundo tinha a mesma quantidade de medo e admiração por ele. Não era fácil. Não foi fácil.
Mesmo todos assumindo que ele era extremamente difícil com tudo àquilo que fosse vivo, as pessoas também reconheciam que a vida que era mais complicada para ele era a minha.
Nunca consegui combater meu pai, discutir com ele, porque nem eu nem ninguém conseguíamos entender porque ele era tão nervoso quando me via.
Lembro de momentos felizes, bonitos, doces, só não lembro de um pai. Lembro bem de um homem difícil que dormia, trabalhava, era conhecido e genial. Vivi a sombra de dois gênios, fui treinado para ser um, tenho de ser um.
A morte do meu pai trouxe mais que uma boa relação, trouxe luz, trouxe conhecimento. Eu consegui sentir alívio, prazer, tristeza e tudo o mais o que eu não me permiti sentir na sua vida. Hoje sei quem foi Luiz. Continuo sem saber quem foi meu pai, talvez eu não possa saber...
Eu o deixei morrer sem perguntar se ele realmente me amava, se ele sentia orgulho de mim. Só via raiva, cobranças... Só fui ver meu pai depois da sua morte, no espelho, no meu olho, na minha música. Percebi que eu estava me tornando aquilo que neguei, que não entendi. Metade de mim quer ter o tamanho dele e a luz que ele guardou, a outra metade quer se rasgar por ser meio monstra, meio rude, meio só.
A monstruosidade não é genética, é de alma pra alma.

A morte pra mim nunca foi início, nem começo de nada, apenas um reflexo em uma poça de água parada e escura que fica sorrindo sorrindo sorrindo...até que some. 

terça-feira, 2 de abril de 2013

Você sabe que eu não durmo com chuva

Tem chuva la fora. Você sabe que eu não durmo com chuva, mas você nunca lembra... É como quando eu digo que não gosto de refrigerante e ninguém lembra, sempre me oferecem. Você deveria lembrar.
Eu levanto e vou até a cozinha beber uma água pra fugir daquela que cai lá fora. Odeio esse barulho, odeio.
Você levanta ainda dormindo e com uma mão cobrindo os olhos tenta me perguntar alguma coisa que lembre "hey, ta tudo bem? volta pra cama..." Eu te corto antes de você terminar e digo: "Perdi o sono..."
Eu queria e deveria dizer: "Você sabe que eu não durmo com chuva". Mas você iria voltar dormir de todo jeito e iria morrer sem lembrar disso. Você nunca lembra.
Vou para a sala e sento no sofá. Fico olhando pro chão, pro brilho do sinteco, pros meu pés.
Tem algo estranho  com meus pés.
Estão sangrando.

terça-feira, 26 de março de 2013

Carta de ameixa

Sinto saudades de você meu bem, como você está?
Eu acho que estou indo também...
Sabe que Isabela nos disse que formamos um casal lindo? Tive que explicar que não somos um casal mas ela cismou em dizer que todo mundo nos vê dessa forma, e ela prefere ver assim.
Acho que nosso amor é tão tranquilo que passa despercebido entre a gente, só dá para os outros admirarem.
Eu ri um pouquinho mas fiquei em silêncio, será que somos um casal? Ou é brincadeira?
Não que eu queira algo forte assim como ser casal, ser junto.
Quer dizer, temos sim algo forte, mas não é isso né? Ou é?
Quer dizer, você quer que seja?
Eu quero se você quiser...
Um grande beijo, do seu querido e amado amigo(?)

PS: To mandando uma torta de ameixa pela Sofia. Eu sei que você não gosta, mas eu só queria que visse como ficou bonita.
PS2: Pode ignorar toda minha confusão, queimar não sei. Mas caso não te incomode tente responder rápido. Isabela e o mundo esperam por uma declaração.