O mundo tem me vazado muito ultimamente. As coisas só escorrem pro vazio porque eu não as quero mais. Me sinto distante de tudo aquilo que me fazia acreditar na carne, na minha humanidade.
Não me sentir humano me liberta.
terça-feira, 25 de dezembro de 2012
segunda-feira, 10 de dezembro de 2012
(Des)esperança
Por Bruno Pereira
Pudesse
então abrir a porta e correr correr correr correr quilômetros em busca daquela
esperança que também correndo correndo correndo correndo insiste em ir embora
para sei lá onde ou com quem e. E foi a partir desta inquietação que eu ainda
cego e perdido corri e tropecei em mim mesmo numa forma desesperadora de
acertar e errando cada vez mais até o momento em que eu fiquei sozinho e triste
e chorando e. E eu fui e você sabe que eu iria até o fim e que eu ficaria até o
último minuto de sua de minha da nossa vida e que eu ficaria além de tudo isso
porque eu queria ter você e. E numa tentativa angustiante para que me olhasse
para que além de tudo isso você me visse eu fiquei naquela tarde fria daquele
dia frio e chuvoso daquele dia doido e doído eu fiquei te esperando com
centenas, não, centenas, não, com milhares de rosas vermelhas que pareciam
aquelas que você tinha pintado no seu mais novo quadro que simbolizava sei lá o
que, que não simbolizava nada, como nada do que estava fazendo simbolizava nada
além de amor e. E com tanta chuva e molhado te esperando e você não vindo as
rosas foram desbotando e eu ia ficando sujo de vermelho como se sangrasse e eu
sangrava mas ninguém via minha dor minha ferida e. E eu não iria te abraçar
caso aparecesse porque eu não queria que me tivesse naquele momento em que eu
estava sujo e podre e úmido e você tinha que guardar o momento mais bonito que
eu tivesse a te oferecer e por isso nunca te abraçava quando ia embora porque
ir embora significava te deixar e te deixar é sinônimo de me deixar e me deixar
é morrer e. E eu fiquei e fui ficando e você não vindo e as rosas descorando e
eu não sabendo se chovia mais fora ou dentro de mim se você me aceitaria
naquele estado ou se você me afastaria com o gesto mais cruel que se pode fazer
e. E eu não me importando mais com o que você pensaria de mim porque eu só
queria que sentisse que eu estava ali que eu nunca tinha partido daquele lugar
em que eu estava desde o primeiro minuto do primeiro dia que cruzei com seus
olhos-de-menino-querendo-ser-adulto-e. E eu não sentia mais frio nem chuva nem
medo nem dor porque eu tinha reconhecido todo o meu precisar daquele menino que
não vinha nunca e. E não importa o quanto ele se afaste o quanto ele me impeça
de tocar eu esperarei todo o tempo do meu amor. Espero-o e me destrói.
Escrevo-o e volto a viver.
Para Camilo
Martins Henrique da Costa.
domingo, 9 de dezembro de 2012
Representação divina
No início era o mar e espíritos inocentes pairavam sobre as águas. Nesse cenário se fez o sequestro justiceiro, no meio do mar, num monte de terra. Dardos, sangue, dor e facões faziam parte da floresta da criação; do jardim satânico do Éden.
No meio era sempre noite e a morte só levava dois por vez. O dia finge nascer e a morte deixa passar duas crianças. Elas se sentem salvas mesmo que o mundo seja mais terrível que o jardim onde se encontravam.
Tudo termina pior do que começou. E então tudo recomeça; no meio do mar, no início da noite, em nome de Deus.
No meio era sempre noite e a morte só levava dois por vez. O dia finge nascer e a morte deixa passar duas crianças. Elas se sentem salvas mesmo que o mundo seja mais terrível que o jardim onde se encontravam.
Tudo termina pior do que começou. E então tudo recomeça; no meio do mar, no início da noite, em nome de Deus.
domingo, 2 de dezembro de 2012
O amor só é se for esquizofrênico
Queria que nós existíssemos, queria que pudéssemos compreender aquilo que não tem entre a gente.
Só rir nos momentos de sorrir é exatamente como a gente faz, como a gente é. Inventamos um ritmo que não perturba nossa vida e que nos mantém suspensos como dois viajantes drogados.
Sentimos dor quando não somos nós que nos fazemos felizes, quando a alegria vem de fora. Vivemos em contato com o mundo mas nos entendemos só.
Sou triste por você não existir.
Você chora. Não porque não existe, mas porque não me tem.
Estamos sós. Um dia nos trocam de lugar e poderemos entender o ritmo do outro, as dores...
Não me abandone jamais, mesmo que eu te esqueça, mesmo que um dia te criem. Mesmo que eu morra.
Mesmo que você descubra que na verdade, quem não existe sou eu.
domingo, 25 de novembro de 2012
"Essa gente deve saber quem somos e contar que estamos aqui!"
Quando você me perder, não se esqueça de mim. Só para que você possa guardar alguma coisa minha.
Depois de perdido eu não volto atrás. Não volto porque não sei o caminho, não enxergo, não falo, não sinto; não é orgulho. Quando eu for embora de vez, não se esqueça de lembrar de mim, por favor.
Alguém precisa guardar alguma coisa dessa história.
Depois de perdido eu não volto atrás. Não volto porque não sei o caminho, não enxergo, não falo, não sinto; não é orgulho. Quando eu for embora de vez, não se esqueça de lembrar de mim, por favor.
Alguém precisa guardar alguma coisa dessa história.
Tempo de Voo
O sentimento de culpa por deixar a cidade sozinha e o pensamento arrogante de que a cidade te segue ao invés de continuar seu caminho. Isso é voar.
segunda-feira, 10 de setembro de 2012
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Toc, toc
Meu passado pequeno quase inexistente bate à porta dos fundos. É que ele, apesar de recente, é mais inteligente que os outros da mesma classe; ele faz barulho pelos fundos para incomodar, assustar, instigar. Enquanto tem visitas na sala ele fica murmurando na área de serviço, faz ruído. Tem vezes que eu pergunto pras pessoas: "Cês tão ouvindo?". Mas ninguém escuta, ninguém pode ver, ele é só meu e ta querendo prestar contas, como um demônio que vem atrás da alma prometida.
Não o conheço e nem quero conhecer. Ou eu abro a porta e sirvo um café pra ele enquanto discutimos os termos do contrato, ou eu continuo fugindo e mando emparedar a porta dos fundos.
O barulho não me deixa dormir, ta me deixando confuso.
Melhor apagar as luzes. Eu penso nisso amanhã...
Não o conheço e nem quero conhecer. Ou eu abro a porta e sirvo um café pra ele enquanto discutimos os termos do contrato, ou eu continuo fugindo e mando emparedar a porta dos fundos.
O barulho não me deixa dormir, ta me deixando confuso.
Melhor apagar as luzes. Eu penso nisso amanhã...
sábado, 25 de agosto de 2012
Dança comigo esta noite?
Ei, dança comigo? Por favor? Precisa ter medo não.
Eu não sei dançar muito bem e você também parece não entender como funciona, mas a gente dá um jeito.
Não quero isso como um contrato, um acerto, um compromisso, um anel, não pra hoje, não pra gente de agora. Quero só dançar um pouquinho, juntinho, pra deixar de te ver com olhos e passar a entender seus ritmos. Depois que essa valsinha acabar aí sim a gente pensa no próximo baile.
Mas vamos não pensar agora? Só tentar aquilo que a gente acha que quer ou acha que pode dar certo? É só uma dança, é só uma noite, é só um beijo.
Me ensina a não bailar? Por favor?
Eu não sei dançar muito bem e você também parece não entender como funciona, mas a gente dá um jeito.
Não quero isso como um contrato, um acerto, um compromisso, um anel, não pra hoje, não pra gente de agora. Quero só dançar um pouquinho, juntinho, pra deixar de te ver com olhos e passar a entender seus ritmos. Depois que essa valsinha acabar aí sim a gente pensa no próximo baile.
Mas vamos não pensar agora? Só tentar aquilo que a gente acha que quer ou acha que pode dar certo? É só uma dança, é só uma noite, é só um beijo.
Me ensina a não bailar? Por favor?
domingo, 19 de agosto de 2012
Entrelinhas
- Não gosto de ser desarmado.
- Eu tenho essa mania, desculpe...
- Que mania?
- De desarmar as pessoas, de cuidar, tratar, levar no colo.
- Tenho medo disso.
- Por que?
- Porque é bom.
- Ah...
- Eu não gosto que as pessoas saibam quem eu realmente sou, me sinto mais fraco.
- Mas você é fraco.
- Eu sei mas...
- Não. Olha, você não precisa se esconder.
- Tenho medo dos meus pontos fracos
- Todo mundo tem.
- Quando uma pessoa souber meu verdadeiro ponto fraco eu já vou estar completamente apaixonado por ela.
- É engraçado isso...
- É...
- Meu maior medo é ser sozinho, ficar sozinho, estar sozinho. É o meu ponto fraco.
- Você nunca vai estar sozinho.
- Você não percebeu...
- O que você disse?
- Oi? Nada...nada não...
- Nosso ônibus.
- É...
- Eu tenho essa mania, desculpe...
- Que mania?
- De desarmar as pessoas, de cuidar, tratar, levar no colo.
- Tenho medo disso.
- Por que?
- Porque é bom.
- Ah...
- Eu não gosto que as pessoas saibam quem eu realmente sou, me sinto mais fraco.
- Mas você é fraco.
- Eu sei mas...
- Não. Olha, você não precisa se esconder.
- Tenho medo dos meus pontos fracos
- Todo mundo tem.
- Quando uma pessoa souber meu verdadeiro ponto fraco eu já vou estar completamente apaixonado por ela.
- É engraçado isso...
- É...
- Meu maior medo é ser sozinho, ficar sozinho, estar sozinho. É o meu ponto fraco.
- Você nunca vai estar sozinho.
- Você não percebeu...
- O que você disse?
- Oi? Nada...nada não...
- Nosso ônibus.
- É...
terça-feira, 14 de agosto de 2012
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Cê vai pra onde?
"Quando a saudade não cabe no peito ela transborda pelos olhos."
É cafona, não é? Não, é claro que é cafona, mas deve ser verdade.
Me incomoda, me chateia e eu ainda não consigo entender como.
Eu sinto saudade de que mesmo? De quem? É tudo muito estranho porque a saudade existe, ela realmente transborda pelos meus olhos mas ela não diz de onde vem e pra onde vai. Tem pessoas que sofrem por querer abraçar o mundo inteiro, eu devo sofrer por sentir saudades do mundo inteiro.
Tenho saudades de um pai que eu perdi, de um amor que eu nunca tive, das suas mãos curando as minhas como um xamã, de uma chuva, de qualquer coisinha boba. Tudo vira choro; absolutamente tudo vira choro.
Me falaram uma vez que a saudade vai parar de me fazer chorar quando eu parar de perguntá-la de onde ela vem... Fiquei com muito medo disso ser verdade e decidi que nunca mais vou perguntar nem à saudade e nem pra ninguém: Cê ta vindo de onde mesmo?
É cafona, não é? Não, é claro que é cafona, mas deve ser verdade.
Me incomoda, me chateia e eu ainda não consigo entender como.
Eu sinto saudade de que mesmo? De quem? É tudo muito estranho porque a saudade existe, ela realmente transborda pelos meus olhos mas ela não diz de onde vem e pra onde vai. Tem pessoas que sofrem por querer abraçar o mundo inteiro, eu devo sofrer por sentir saudades do mundo inteiro.
Tenho saudades de um pai que eu perdi, de um amor que eu nunca tive, das suas mãos curando as minhas como um xamã, de uma chuva, de qualquer coisinha boba. Tudo vira choro; absolutamente tudo vira choro.
Me falaram uma vez que a saudade vai parar de me fazer chorar quando eu parar de perguntá-la de onde ela vem... Fiquei com muito medo disso ser verdade e decidi que nunca mais vou perguntar nem à saudade e nem pra ninguém: Cê ta vindo de onde mesmo?
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Traz má sorte, é mau presságio.
Existem povos que juram de pés juntos que o arco-íris traz má sorte. Eu acho isso muito sábio, ver o arco-íris como um símbolo de mau presságio, um grasnar de corvo. Eu vou pensando nisso tudo porque eu tenho muito medo das cores, não de cada cor, mas das cores, delas juntas. Depois que o homem inventou o mundo em colorido tudo ficou mais perigoso.
Penso que viver em um mundo em preto e branco é mais tranquilo, é mais seguro e mais fácil de ser elegante. As cores só complicam. Elas criam emoções que a gente não conhece, que ainda não tem nome. É muita confusão e incerteza pro meu sangue cósmico de capricórnio.
Talvez seja por isso que as pessoas comecem a estudar arte, né? Para enfrentar esse medo. Claro que é uma atitude muito covarde porque se fossemos corajosos, nós, os estudantes de arte, fingiríamos que elas não existem e tudo estaria resolvido. Mas acontece que temos tanto medo que precisamos ir mais fundo, conhecer o inimigo, saber do que ele é capaz.
Os artistas são os mais corajosos do mundo porque eles não ignoram e nem temem as cores, eles mandam nelas. (O que às vezes me faz pensar que vivemos em uma ditadura de cores organizadas por artistas inteligentes, mas isso é uma outra história).
Nós, os estudantes de arte, somos os mais bobos e medrosos do mundo. A gente só quer correr pra bem longe, fugir da família, fugir dos amores, fugir do mundo. Mas somos incompetentes nessa fuga, porque justo por sermos os mais medrosos é que somos os que mais amam esse mundo.
Penso que viver em um mundo em preto e branco é mais tranquilo, é mais seguro e mais fácil de ser elegante. As cores só complicam. Elas criam emoções que a gente não conhece, que ainda não tem nome. É muita confusão e incerteza pro meu sangue cósmico de capricórnio.
Talvez seja por isso que as pessoas comecem a estudar arte, né? Para enfrentar esse medo. Claro que é uma atitude muito covarde porque se fossemos corajosos, nós, os estudantes de arte, fingiríamos que elas não existem e tudo estaria resolvido. Mas acontece que temos tanto medo que precisamos ir mais fundo, conhecer o inimigo, saber do que ele é capaz.
Os artistas são os mais corajosos do mundo porque eles não ignoram e nem temem as cores, eles mandam nelas. (O que às vezes me faz pensar que vivemos em uma ditadura de cores organizadas por artistas inteligentes, mas isso é uma outra história).
Nós, os estudantes de arte, somos os mais bobos e medrosos do mundo. A gente só quer correr pra bem longe, fugir da família, fugir dos amores, fugir do mundo. Mas somos incompetentes nessa fuga, porque justo por sermos os mais medrosos é que somos os que mais amam esse mundo.
terça-feira, 10 de julho de 2012
Notícias de uma gripe particular
A gripe, o chá, a falta dos cigarros, a falta dos remédios, a falta de alguém. O silêncio da tosse desperta os sentidos e a lembrança de um romance que nunca existiu. Tudo se perde em um sonho onde você é grande, amado e querido.
Quando então você espirra e se lembra que está sozinho, doente por dentro e por fora do edredom. O chá frio e o reality show parecem as únicas opções no momento e então você pergunta para aquela pessoa que você deseja e não conhece: Cadê você?
Quando então você espirra e se lembra que está sozinho, doente por dentro e por fora do edredom. O chá frio e o reality show parecem as únicas opções no momento e então você pergunta para aquela pessoa que você deseja e não conhece: Cadê você?
segunda-feira, 2 de julho de 2012
O último a sair apaga a luz
Sou esquecido demais. Não esquecido de não lembrar das coisas, mas no sentido de que não lembram de mim. Tudo bem que na maioria das vezes é drama, mas em alguns casos é forte mesmo. Um esquecimento vazio, infinito, que ecoa igual abismo.
Passo pela vida de alguns levando tudo que eu penso que tenho de bom, depois disso eu não sou citado nem em briga, nem em sonho, nem em nada.
Eu pensei que eu me achasse feio e insuportável por esse motivo, mas não é. Sou feio e insuportável por outros motivos. Porque para essas características servirem como agravante no meu processo de esquecimento eu precisaria ser visto como o feinho, o chato, ou o arrogante. Lembrado como alguém ruim, mas lembrado.
Me sinto em uma sala escura, deixado pra trás; uma célula desconhecida de alzheimer...
Na maioria das vezes que isso acontece eu fico só atordoado e meio confuso, mas às vezes até dói, sabe?
Passo pela vida de alguns levando tudo que eu penso que tenho de bom, depois disso eu não sou citado nem em briga, nem em sonho, nem em nada.
Eu pensei que eu me achasse feio e insuportável por esse motivo, mas não é. Sou feio e insuportável por outros motivos. Porque para essas características servirem como agravante no meu processo de esquecimento eu precisaria ser visto como o feinho, o chato, ou o arrogante. Lembrado como alguém ruim, mas lembrado.
Me sinto em uma sala escura, deixado pra trás; uma célula desconhecida de alzheimer...
Na maioria das vezes que isso acontece eu fico só atordoado e meio confuso, mas às vezes até dói, sabe?
Estrela
Amigo. Você me chamava assim não é? Em um tom afetado, de uma forma pomposa... Esse vocativo sempre me incomodou, mas eu nunca tentei entender o motivo, eu era apaixonado demais para me preocupar com esse detalhe.
Hoje a palavra amigo que você me direcionava a cada cinco segundos traduz tudo o que eu não fui, o que eu não era, o que eu não pude.
Eu tentei ser tudo para você, te ofereci tudo o que eu considerava precioso e você sempre ignorou. A culpa é minha, isso eu sei, de ver a sua solene indiferença desde o início como algo normal.
Seu talento, movimentos e cores se traduziram em uma das minhas mais belas gravuras, e um dos mais belos livros de minha mãe.
Você foi embora. Foi embora da minha casa, das minhas noites, da minha vida, levou a gravura, o livro e minha amizade, minha dedicação. Igual a Rita de uma certa música...
Eu disse um dia que você era uma estrela, amigo, e que de todas era a mais brilhante. Acontece que no seu universo não tem espaço para mais ninguém, seu brilho precisa ofuscar todos os astros ao seu redor.
Hoje me convenço de que não te perdi, mas de que você se perdeu e levou pro buraco seu talento, seu esplendor e sua platéia.
Espero que um dia perceba que o show acabou no dia em que eu apaguei a luz e fui embora. Porque você nunca teve e nunca terá, uma platéia tão emocionada como a que eu fui.
Hoje a palavra amigo que você me direcionava a cada cinco segundos traduz tudo o que eu não fui, o que eu não era, o que eu não pude.
Eu tentei ser tudo para você, te ofereci tudo o que eu considerava precioso e você sempre ignorou. A culpa é minha, isso eu sei, de ver a sua solene indiferença desde o início como algo normal.
Seu talento, movimentos e cores se traduziram em uma das minhas mais belas gravuras, e um dos mais belos livros de minha mãe.
Você foi embora. Foi embora da minha casa, das minhas noites, da minha vida, levou a gravura, o livro e minha amizade, minha dedicação. Igual a Rita de uma certa música...
Eu disse um dia que você era uma estrela, amigo, e que de todas era a mais brilhante. Acontece que no seu universo não tem espaço para mais ninguém, seu brilho precisa ofuscar todos os astros ao seu redor.
Hoje me convenço de que não te perdi, mas de que você se perdeu e levou pro buraco seu talento, seu esplendor e sua platéia.
Espero que um dia perceba que o show acabou no dia em que eu apaguei a luz e fui embora. Porque você nunca teve e nunca terá, uma platéia tão emocionada como a que eu fui.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
Veios
Tenho medo de sangue. Gelo, desmaio, perco o foco. Irracional ou não, eu tenho medo de sangue.
Não sei se tal sandice se justifica, mas sei que a ideia de encarar em cores e formas o que sou por dentro, encarar o meu eu cru, em cheiro e em traços, me da vertigens.Antes fossemos feitos de ar, de qualquer coisa sem cor, sem signo, sem vida, assim não precisaríamos encarar nada.
A cor carrega um fator agressivo muito grande e esse fator, no caso do sangue, agrega culpa, pecado, vida, histórias... Ver meu sangue me faz lembrar, enfrentar.
Minha fraqueza não está no sangue, mas no que ele traz quando corre.
Não sei se tal sandice se justifica, mas sei que a ideia de encarar em cores e formas o que sou por dentro, encarar o meu eu cru, em cheiro e em traços, me da vertigens.Antes fossemos feitos de ar, de qualquer coisa sem cor, sem signo, sem vida, assim não precisaríamos encarar nada.
A cor carrega um fator agressivo muito grande e esse fator, no caso do sangue, agrega culpa, pecado, vida, histórias... Ver meu sangue me faz lembrar, enfrentar.
Minha fraqueza não está no sangue, mas no que ele traz quando corre.
quarta-feira, 27 de junho de 2012
Preceito de Callas.1
"Não me peça a vida, apenas quero estar casada com a minha arte."
Quero poder dizer e ser isso. Tenho medo demais do que a vida me reserva. Gosto de resolver problemas ricos, escolhidos, medidos e precisos, por isso pinto. Na arte as coisas se resolvem e na vida só se resolvem as vezes.
Queria poder pegar essa ponte entre a vida e arte e ir direto para o outro lado.
Com arte a guerra é mais segura e o sangue é sempre mais ralo.
Quero poder dizer e ser isso. Tenho medo demais do que a vida me reserva. Gosto de resolver problemas ricos, escolhidos, medidos e precisos, por isso pinto. Na arte as coisas se resolvem e na vida só se resolvem as vezes.
Queria poder pegar essa ponte entre a vida e arte e ir direto para o outro lado.
Com arte a guerra é mais segura e o sangue é sempre mais ralo.
sábado, 23 de junho de 2012
A justificativa de um criminoso
Bato na cara da amizade porque não posso bater em outra. Raiva, decepção e carinho eu só demonstro pra quem eu amo. Sou bruto, violento, escroto e pobre. Não sei amar, amo pior que todos, machuco demais, cobro demais.
Me meto, sou direto, invado vidas e dou opinião.
Sou indiscreto, espanco mulheres, e bagunço projetos. Meu crime está na tentativa imbecil de achar uma forma de amar sem que ela se mostre superior, tola, ou assassina.
Não era pra ter sido uma declaração. Ao menos eu não planejava que fosse até porque eu não sei se tenho material sentimental suficiente para declarar. Mas entre a festa, o álcool, o falso glamour e o baile de máscaras, você estava torto, triste, longe. Não que isso seja ruim, criminoso, falso, mas dói pra quem vê, machuca em quem gosta. Precisei tentar falar o que sentia, ou o que senti (não me lembro), só pra ver se as fichas caiam. Todas as suas e uma das minhas.
Em chuva e em cama eu percebi que o que foi dito era pra ser. O que foi dito cumpriu a função de me tirar de um deslumbre e de te mostrar, mesmo que bebadamente, a sua função de precioso.
Queria ter esquecido a noite pelo álcool, mas esqueci por confusão, por bagunça. Não tenho mais nenhuma ciência, não existe mais nenhuma culpa da parte de ninguém; nem aquela que não existia. Agora estou salvo e solto. Estamos prontos.
domingo, 17 de junho de 2012
2
- Você faria qualquer coisa por mim?
- Sim.
- Por que?
- Porque eu preciso de você.
- Mas isso é egoísmo!
- Eu pensei que fosse romântico, oras...
- Mas não é.
- Você pega tudo que eu digo e transforma em algo negativo...
- Mas eu não transformei nada.
- Óbvio que transformou. Desde quando sou egoísta?
- Não disse que você é egoísta, mas o que você disse é.
- Hum... Não mereço essas cobranças, não somos um casal.
- Não somos?
- Não.
- Então você não me ama...
- Eu amo a gente.
- Então por que não somos um casal?
- Porque eu tenho medo. Só vivemos felizes porque não somos um casal.
- Você é fraco...
- Você sempre soube disso.
- É... Mas por que?
- Porque eu tenho medo que acabe.
- Mas precisa acabar um dia, certo?
- Mas é melhor que demore...
- Eu também não quero que acabe...
- Eu te amo.
- E eu acho que também preciso de você.
- Viu?
- Viu o quê?
- Somos fracos.
terça-feira, 12 de junho de 2012
As vezes quero me banhar nas águas de Janaína só pra ver se purgo essas incertezas de menino. É muito penoso carregar dúvidas de criança quando se tem problemas quase-pseudo-adultos.
É que tem esses namoricos que passam, que surgem, que somem. Esses flertes e paqueras que duram segundos mas que nos tiram do chão. Tudo isso me deixa meio perdido. Principalmente quando é com essas pessoas-mistério que surgem do nada e somem no nada, mas que te encantam por dias e te viciam por horas. E no meio dessa confusão a criança dentro da gente quer gritar: "De novo! De novo!", mas aí você sai correndo, perde a pessoa e não cai nas águas.
É que tem esses namoricos que passam, que surgem, que somem. Esses flertes e paqueras que duram segundos mas que nos tiram do chão. Tudo isso me deixa meio perdido. Principalmente quando é com essas pessoas-mistério que surgem do nada e somem no nada, mas que te encantam por dias e te viciam por horas. E no meio dessa confusão a criança dentro da gente quer gritar: "De novo! De novo!", mas aí você sai correndo, perde a pessoa e não cai nas águas.
quinta-feira, 7 de junho de 2012
A primeira e a última
Querido,
Nunca pude te mandar uma carta de amor. Primeiro porque você não gosta, segundo porque eu também acho meio cafona. Mas agora que acabou (ou acabamos), eu devo a mim, e ao que ainda guardo de você, escrever essa cartinha.
O fato de sabermos que não iríamos dar certo só tornou nosso relacionamento mais bonito. Porque assim os dois lutaram para provar o contrário; você tentando ver onde me amava, e eu te amando como posse, como cria, como mestre.
Das incompatíveis ideias eu aprendi muito, devo isso a você. Devo também a oportunidade de poder te ajudar a ver onde você estava, onde você era e onde nunca poderá ser. Vivíamos como casal, como casa, como cozinha, como roupa suja. Vivíamos nos enganando e só por isso fomos felizes.
Dos presentes e do sexo eu guardo o teu sorriso. Das brigas e discussões eu guardo seu colo; e da sua (nossa) cama eu vejo as manhãs de "Bom dia, amor!" que me ajudavam a organizar a vida.
A traição veio dentro da gente. Você traiu seu amor por mim quando não conseguiu mostrar o quanto e como me amava. Eu trai o meu amor por nós; esqueci de mim e da nossa relação, planejando formas de conquistar algo que já era meu...mas que eu não via.
Eu te perdi, nós nos perdemos. Me arrependo de não ter te amado mais. Isso eu resolvo um dia.
Não nos culpe como eu fiz.
Um grande beijo
Camilo Martins
Nunca pude te mandar uma carta de amor. Primeiro porque você não gosta, segundo porque eu também acho meio cafona. Mas agora que acabou (ou acabamos), eu devo a mim, e ao que ainda guardo de você, escrever essa cartinha.
O fato de sabermos que não iríamos dar certo só tornou nosso relacionamento mais bonito. Porque assim os dois lutaram para provar o contrário; você tentando ver onde me amava, e eu te amando como posse, como cria, como mestre.
Das incompatíveis ideias eu aprendi muito, devo isso a você. Devo também a oportunidade de poder te ajudar a ver onde você estava, onde você era e onde nunca poderá ser. Vivíamos como casal, como casa, como cozinha, como roupa suja. Vivíamos nos enganando e só por isso fomos felizes.
Dos presentes e do sexo eu guardo o teu sorriso. Das brigas e discussões eu guardo seu colo; e da sua (nossa) cama eu vejo as manhãs de "Bom dia, amor!" que me ajudavam a organizar a vida.
A traição veio dentro da gente. Você traiu seu amor por mim quando não conseguiu mostrar o quanto e como me amava. Eu trai o meu amor por nós; esqueci de mim e da nossa relação, planejando formas de conquistar algo que já era meu...mas que eu não via.
Eu te perdi, nós nos perdemos. Me arrependo de não ter te amado mais. Isso eu resolvo um dia.
Não nos culpe como eu fiz.
Um grande beijo
Camilo Martins
sábado, 2 de junho de 2012
Ainda tento entender como exatamente a morte do meu pai influenciou na criação desse novo blog. Talvez não tenha sido sua morte, mas o que eu registrei dela. Meu antigo blog está repleto dele, ou da falta dele, da dor dele, do choro meu...A forma como as coisas se retorceram depois de sua morte deu vida à novas experiências. Não consigo saber se foram boas, amargas, ruins, mas sei que foram justas e essa justiça eu devo a papai, que só me deu liberdades quando se foi. Não que ele tenha sido cruel e me prendido a vida inteira, mas é que ele precisava me deixar preparado para o mundo, para que eu estivesse pronto quando eu fosse capaz de ter alguma liberdade. As vezes penso que ele me deixou preparado para tomar parte de seu lugar na existência, já que suas marcas em mim estão se evidenciando cada vez mais.Voz, jeito, canto, cabeça... Sou e estou mais próximo de meu pai, e isso só começou depois que ele decidiu partir.
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