Por Bruno Pereira
Pudesse
então abrir a porta e correr correr correr correr quilômetros em busca daquela
esperança que também correndo correndo correndo correndo insiste em ir embora
para sei lá onde ou com quem e. E foi a partir desta inquietação que eu ainda
cego e perdido corri e tropecei em mim mesmo numa forma desesperadora de
acertar e errando cada vez mais até o momento em que eu fiquei sozinho e triste
e chorando e. E eu fui e você sabe que eu iria até o fim e que eu ficaria até o
último minuto de sua de minha da nossa vida e que eu ficaria além de tudo isso
porque eu queria ter você e. E numa tentativa angustiante para que me olhasse
para que além de tudo isso você me visse eu fiquei naquela tarde fria daquele
dia frio e chuvoso daquele dia doido e doído eu fiquei te esperando com
centenas, não, centenas, não, com milhares de rosas vermelhas que pareciam
aquelas que você tinha pintado no seu mais novo quadro que simbolizava sei lá o
que, que não simbolizava nada, como nada do que estava fazendo simbolizava nada
além de amor e. E com tanta chuva e molhado te esperando e você não vindo as
rosas foram desbotando e eu ia ficando sujo de vermelho como se sangrasse e eu
sangrava mas ninguém via minha dor minha ferida e. E eu não iria te abraçar
caso aparecesse porque eu não queria que me tivesse naquele momento em que eu
estava sujo e podre e úmido e você tinha que guardar o momento mais bonito que
eu tivesse a te oferecer e por isso nunca te abraçava quando ia embora porque
ir embora significava te deixar e te deixar é sinônimo de me deixar e me deixar
é morrer e. E eu fiquei e fui ficando e você não vindo e as rosas descorando e
eu não sabendo se chovia mais fora ou dentro de mim se você me aceitaria
naquele estado ou se você me afastaria com o gesto mais cruel que se pode fazer
e. E eu não me importando mais com o que você pensaria de mim porque eu só
queria que sentisse que eu estava ali que eu nunca tinha partido daquele lugar
em que eu estava desde o primeiro minuto do primeiro dia que cruzei com seus
olhos-de-menino-querendo-ser-adulto-e. E eu não sentia mais frio nem chuva nem
medo nem dor porque eu tinha reconhecido todo o meu precisar daquele menino que
não vinha nunca e. E não importa o quanto ele se afaste o quanto ele me impeça
de tocar eu esperarei todo o tempo do meu amor. Espero-o e me destrói.
Escrevo-o e volto a viver.
Para Camilo
Martins Henrique da Costa.
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