quarta-feira, 3 de julho de 2013

Infância que apaixona

Me encantei por um garoto que brincava com um elefante amarelo. O menino cortava, costurava, cerzia e remendava roupinhas para o elefante. Mas em momento algum ele se apegou ao brinquedo, entendia que era um boneco sem vida.
Ele só queria brincar e desafiar as pessoas que se aproximavam mostrando que seu brinquedo favorito era um elefante amarelo. Ele sabia que todo mundo olhava torto, que era estranho. Mas o menino gostava do estranho, do diferente, o estranho era ser amarelo, era explosivo, era feliz.
Guiado pela cor do animal gigante ele conseguiu sua liberdade antes da adolescência.
Fiquei tão nervoso com aquele menino crescendo rápido, ganhando o mundo e andando sozinho com as próprias pernas do elefante, que bolei um plano para tentar trazer ele de volta.
Me casei com ele.
O plano deu errado.
Hoje eu dou comida pro elefante enquanto ele conta histórias pro bichinho e diz como essa nossa família vai ganhar o mundo.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Por Parte de Pai

-Mãe, a minha relação com o meu pai só vai melhorar quando ele morrer, e isso já está para acontecer.
Quando eu disse essas palavras em uma conversa com minha mãe, nós não sabíamos que meu pai estava mal de saúde. Foi profecia.
Todo mundo sempre soube, e hoje faz questão de esquecer, como era difícil a convivência entre Camilo e Luiz. O primeiro era criança e o segundo era um monstro. Um monstro literário, um monstro acadêmico, um monstro de amigo...mas não era fácil dividir o mesmo teto desse monstro.
Minha mãe sempre diz que falar cura, mas falar sobre meu pai é tão difícil quanto era falar com ele. Todo mundo tinha a mesma quantidade de medo e admiração por ele. Não era fácil. Não foi fácil.
Mesmo todos assumindo que ele era extremamente difícil com tudo àquilo que fosse vivo, as pessoas também reconheciam que a vida que era mais complicada para ele era a minha.
Nunca consegui combater meu pai, discutir com ele, porque nem eu nem ninguém conseguíamos entender porque ele era tão nervoso quando me via.
Lembro de momentos felizes, bonitos, doces, só não lembro de um pai. Lembro bem de um homem difícil que dormia, trabalhava, era conhecido e genial. Vivi a sombra de dois gênios, fui treinado para ser um, tenho de ser um.
A morte do meu pai trouxe mais que uma boa relação, trouxe luz, trouxe conhecimento. Eu consegui sentir alívio, prazer, tristeza e tudo o mais o que eu não me permiti sentir na sua vida. Hoje sei quem foi Luiz. Continuo sem saber quem foi meu pai, talvez eu não possa saber...
Eu o deixei morrer sem perguntar se ele realmente me amava, se ele sentia orgulho de mim. Só via raiva, cobranças... Só fui ver meu pai depois da sua morte, no espelho, no meu olho, na minha música. Percebi que eu estava me tornando aquilo que neguei, que não entendi. Metade de mim quer ter o tamanho dele e a luz que ele guardou, a outra metade quer se rasgar por ser meio monstra, meio rude, meio só.
A monstruosidade não é genética, é de alma pra alma.

A morte pra mim nunca foi início, nem começo de nada, apenas um reflexo em uma poça de água parada e escura que fica sorrindo sorrindo sorrindo...até que some.