sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Lumière

O artista argentino Julio Le Parc, que vive em Paris desde seus 31 anos, teve a sua exposição Lumière remontada na Casa Daros no Rio de Janeiro. Le Parc é conhecido por ser muito crítico e debochado, e por criar obras com um teor político muito explícito; sejam elas sobre o sistema capitalista, a burguesia opressora ou o mercado da arte. Em Lumière a militância do artista se dedica à missão de combater a forma como o espectador percebe a obra de arte.
Para Le Parc a arte só é possível quando o espectador usa seus próprios olhos para explorá-la, invertê-la e destrinchá-la. É com esse pensamento que ele cria suas máquinas produtoras e desenhadoras de luz. Para que não tenhamos um ponto de partida, para que o nosso olhar possa criar uma ponte nem um pouco sólida como o objeto de arte. Lumière é uma exposição muito bem planejada para que não haja planejamento algum da parte de quem vê. A liberdade do olhar se torna um claro objetivo do artista nessa exposição.
Trabalhar com a luz, como Le Parc faz, não só nos confunde em relação à forma como devemos ver, como nos desorienta quanto ao que estamos vendo. Talvez seja uma espécie de desenho fotografado, ou foto em movimento... Logo se torna impossível não se questionar: como é possível criar essa movimentação tão livre e espontânea usando aquilo que se propaga em linha reta, que é rápida, firme?
Emocionante e genial, o cinetismo fotográfico de Le Parc me chama à atenção para um mundo muito mais iluminado que luminoso. A luz, hoje, é artifício para destacar, alertar e indicar outras coisas. Mesmo as fontes luminosas, aquelas que despejam a luz no mundo (e esta por sua vez, ganhando uma forma completamente diferente da sua de origem), foram esquecidas. Tudo isso talvez se explique por esse confinamento, ou talvez adequamento, ao qual nos encontramos, que nos “ensina” a ver as coisas e nos obriga a experimenta-las de um modo muito uniforme.

Caminhando por Lumière, em algum momento martela na sua cabeça ex umbris ad lucem, mas logo você vai ignorar esse ditado. Porque ali dentro talvez você perceba que trevas e luz fazem parte da liberdade que o olho tanto anseia. 

Um comentário:

  1. Apesar de eu ser um bruto novato apreciador de artes, creio que posso contar o que pude absorver dessa exposição. Fiquei chocado com a capacidade do Le Parc em manipular a luz como brinquedo, como quem direciona um barquinho de papel descendo numa corrente pequena de água. Parece que ele desacelera a luz e a maneja das mais inusitadas formas, gerando sensações inesperadas a cada monumento.

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