Amigo. Você me chamava assim não é? Em um tom afetado, de uma forma pomposa... Esse vocativo sempre me incomodou, mas eu nunca tentei entender o motivo, eu era apaixonado demais para me preocupar com esse detalhe.
Hoje a palavra amigo que você me direcionava a cada cinco segundos traduz tudo o que eu não fui, o que eu não era, o que eu não pude.
Eu tentei ser tudo para você, te ofereci tudo o que eu considerava precioso e você sempre ignorou. A culpa é minha, isso eu sei, de ver a sua solene indiferença desde o início como algo normal.
Seu talento, movimentos e cores se traduziram em uma das minhas mais belas gravuras, e um dos mais belos livros de minha mãe.
Você foi embora. Foi embora da minha casa, das minhas noites, da minha vida, levou a gravura, o livro e minha amizade, minha dedicação. Igual a Rita de uma certa música...
Eu disse um dia que você era uma estrela, amigo, e que de todas era a mais brilhante. Acontece que no seu universo não tem espaço para mais ninguém, seu brilho precisa ofuscar todos os astros ao seu redor.
Hoje me convenço de que não te perdi, mas de que você se perdeu e levou pro buraco seu talento, seu esplendor e sua platéia.
Espero que um dia perceba que o show acabou no dia em que eu apaguei a luz e fui embora. Porque você nunca teve e nunca terá, uma platéia tão emocionada como a que eu fui.
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